Sandra começou a ler a saga de E. L. James há um ano e vai no último livro da trilogia. Já gostava de literatura erótica e como ia sair o filme resolveu antecipar-se. Para já, ainda não passou nada para a sua vida íntima, mas admite curiosidade em experimentar vendas e algemas, a sensação de restrição tão presente nos encontros escaldantes da jovem Anastasia com Christian Grey, que tornaram populares o submundo do bondage e a ideia de que a dor pode ser fonte de prazer. “Não sabermos o que vai acontecer e não podermos tocar, estar na dependência de alguém, poderá ser uma experiência bastante sensual”, diz. Ter um homem que cuide “das nossas necessidades”, acrescenta, não se importando com a indiscrição da pergunta. Afinal, encontramo-la numa página do Facebook onde se partilha o entusiasmo com a adaptação ao cinema com estreia mundial marcada para 12 Fevereiro.
A chegada de “As Cinquenta Sombras de Grey“ ao grande ecrã tem feito correr muita tinta, com cada trailer a suscitar notícias por muito pouco que as imagens revelem ainda sobre o nível de picante do desempenho de Dakota Johnson, que será Anastasia, e Jarmie Dorman, que dá corpo a Grey. Mas no que toca ao apimentar das relações, bastaram os livros e Portugal não é excepção. Nas sex shops, o efeito Grey sente-se desde que foi publicado o primeiro livro, em Julho de 2012. Venderam-se 450 mil exemplares da saga e depois dos livros chegarem às estantes das casas portuguesas, seguiu-se a compra de brinquedos sexuais.
Esse é pelo menos o testemunho de quem trabalha em sex shops. Numa ronda por alguns estabelecimentos, é unânime que a leitura fez aumentar as vendas, em particular dos brinquedos usados no livro, como chicotes, vendas, bolas de metal, vibradores e até baloiços sexuais, faixas que se penduram no tecto e permitem experimentar algumas acrobacias no sexo.
Rui Brito, da Loja do Sexo, em Lisboa, diz que o aumento é considerável, sobretudo nos tais artigos de restrição como cordas e algemas. Alguns clientes referem mesmo o livro para fazer alguns pedidos, como as bolas vaginais e produtos para sexo anal. Desde o ano passado vendem também a linha produzida no Reino Unido com a assinatura de E. L. James, que terá uma nova gama no próximo mês.
Apesar do aumento da procura ser consensual, isso não significa para os lojistas que os portugueses se estejam a virar para comportamentos sexuais mais violentos, que também são retratados nos livros. Na loja Amor-Perfeito, no Barreiro, aumentou de facto a saída de chicotes, mas mais dos que são “a brincar” e permitem o efeito visual e sonoro do que os que causam dor, explicou uma funcionária. Também Rui Brito diz que os produtos mais vendidos continuam a ser os vibradores, que alguns clientes complementam agora com artigos que podem ser classificados como bondage “light”, explica.
Segundo a imprensa norte-americana, a evocação de “comportamentos invulgares” é considerada inédita mesmo, mesmo no meio dos thriller eróticos. “Estou interessada em saber o que é as pessoas pensam que são comportamentos invulgares mas quando vi [a terminologia usada] pensei: será que fizeram alguma coisa ao filme desde a última vez que o vi? Ou eu estou demasiada habituada a ele ou é mesmo invulgar”, disse Brunetti na gala dos Globos de Ouro.
Será a expressão resultado do pudor em torno do bondage e sadomasoquismo? E serão estes comportamentos normais ou desviantes? Fernando Mesquita, sexólogo, faz a ressalva de não conhecer ainda o filme, mas explica que num casal adulto, o desvio surge apenas quando os parceiros não estão em sintonia. “Mesmo a dor está muito associada à parte erótica no cérebro, o que explica as palmadas excitarem algumas pessoas”, diz. “Isso só é desviante se a pessoa disser ao companheiro ou companheira que isso a incomoda e não quer e ele continuar. Mas se não se importa e até sente prazer com isso, não existe problema.”
O psicólogo lembra que, como em todos os comportamentos, existem diferentes níveis mas que mesmo no sadomasoquismo é comum a pessoa dominada ter uma palavra acordada com o parceiro para caso esteja desconfortável com a dor. “Tudo o que é diferente às vezes assusta, mas o que temos de ver é que o facto de isso nos ser apresentado não significa que tenhamos de o fazer em casa. Mas também não podemos ignorar que há casais que têm este comportamento sexual, gostam e vivem felizes.”
Mesquita também reconhece que o fenómeno Grey teve um impacto na abertura dos portugueses a experiências com brinquedos sexuais, aliás porque algumas doentes lho comunicaram. Admite também que como se verifica alguma redução de libido em tempos de crise, associada a mais preocupações dos casais, alguns estarão por isso a procurar mais novidades que sabem estar disponíveis para apimentar relações. Não só por causa da trilogia mas também por cada vez se fala mais abertamente destes temas e há mais conteúdos disponíveis. Ainda assim, a iniciativa continua a ser mais delas do que deles, que em matéria de brinquedos tendem a cingir-se sobretudo a experiências com vibradores:“O homem é muito falocêntrico, é a mulher que introduz mais variedade”, explica.
Se tornar-se um vício recorrer a brinquedos pode ser um sinal de alarme, avisa o psicólogo, certo é que o tabu das sex shop e de experimentar coisas novas, em particular junto dos mais jovens, parece estar derrubado. E Fernando Mesquita considera a maior abertura positiva para relações saudáveis, onde a rotina pode ser um inimigo a combater.
Aos 33 anos, casada e com um filha de quatro anos, Sandra só ainda não se aventurou numa sex shop por não se sentir preparada. “Desde que fui mãe tenho muito menos tempo e privacidade”, diz. Está à espera do momento certo e acha que o marido ia gostar. É precisamente a maior abertura que tem em relação a estes temas que sente ser o grande contributo dos livros. “Deixam de ser coisas bizarras e feias, a ideia que muitas vezes os filmes pornográficos transmitem. Mostram que podem ser meios de sensualidade e desejo e não comportamentos bizarros e decadentes.”Por Marta F. Reis publicado em 15 Jan 2015 - 10:00
(http://www.ionline.pt/artigos/portugal/sombras-grey-fazem-disparar-compra-chicotes-vendas/pag/-1)